sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Igreja de Gottfried Böhm - Brusque


Gottfried Böhm é um arquiteto alemão que recebeu o Prêmio Pritzker no ano de 1986. Seu pai, Dominikus Böhm e seu avô Alois Böhm foram arquitetos, assim como três de seus filhos, entre eles, Peter Böhm. Poucos sabem que ele construiu duas obras no Brasil, em Brusque e Blumenau, duas cidades com enorme influência alemã na cultura. O fotógrafo Ronaldo Azambuja compartilhou conosco o ensaio da Igreja Matriz São Luiz Gonzaga, em Brusque. O texto foi escrito por Angelina Wittmann, arquiteta e pesquisadora.










A Igreja Matriz São Luiz Gonzaga está localizada na cidade de Brusque SC – Brasil. Seu conjunto apresenta uma arquitetura de destaque na paisagem da cidade, provido de conceito semelhante ao de outra igreja da região – a Catedral São Paulo Apóstolo de Blumenau. Os dois projetos foram criados no mesmo escritório de Arquitetura da Alemanha – pertencente a uma família de arquitetos, onde trabalhavam o arquiteto Dominikus Böhm, pai do também arquiteto, Gottfried Böhm, autor do projeto da igreja de Brusque. Dominikus Böhm foi referência na Europa como arquiteto de projetos de igrejas. Construiu sua primeira igreja nos anos de 1910 e, no final dos anos de 1920, já era muito conhecido e com muitas obras executadas na Alemanha.

Sob a indicação do Papa Pio XI - Dominikus foi apresentado à Ordem Franciscana de Blumenau, para fazer o projeto da nova igreja da cidade. Não viu sua obra concluída - faleceu antes de sua inauguração – em 1954. Gottfried Böhm deu sequência ao seu trabalho. Em 1953, quando estava em Blumenau, foi convidado pelo presidente da comissão construtora - Guilherme Renaux, a ir até a cidade de Brusque, quando lhe foi solicitado o projeto da nova Igreja da cidade. É impossível falar da obra de Brusque, sem falar dos dois arquitetos Böhm, pai e filho.


A igreja em Brusque foi o terceiro templo a ocupar o terreno de topografia acidentada provido de um desnível de mais de 20 metros. Após a visita ao local, em 1953, o projeto foi desenvolvido na Alemanha. Em uma entrevista, o arquiteto lamentou não ter podido acompanhar a execução deste.

“Mas é muito complicado fazer algo bem feito quando não se faz o acompanhamento frequente, como aconteceu em Brusque, e infelizmente nem tudo ficou como deveria ter sido. No entanto, ela também possui uma situação privilegiada com sua imponente escadaria. ” Gottfried Böhm: (NOLL,2014)


Para locar a igreja no terreno, foi necessário fazer uma terraplanagem e aterro, criando um platô. A pedra fundamental foi lançada em 1955 com uma grande festa popular. Em 1962, iniciaram as celebrações das missas em seu espaço. Durante a construção, cogitou-se manter a igreja antiga, até que a nova ficasse pronta. No entanto, a inclinação acentuada do terreno não permitiu que a ideia fosse considerada. O volume da igreja projetada cobriu as escadarias de acesso, criando um monumental portal.


O tom cinza da igreja é oriundo do uso dos blocos de granito cinza extraídos da região - morros do bairro Volta Grande, em uma pedreira local. As cores escolhidas e adotadas criaram uma monocromia que reporta à Arquitetura Moderna. São cores oriundas dos materiais usados nos elementos que compõem a arquitetura, como: piso, aberturas, fechamento e teto.

Enquanto o espaço interno da igreja reporta a uma "caverna", negando o externo através das fechadas e grossas paredes de pedras quase desprovidas de aberturas, seu teto recebe um "rendilhado" que permite a entrada da luz através panos de vidro, tornando-a indireta, compondo com uma fina capa de concreto que “movimenta” em curvas.

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As obras de Dominikus e Gottfried são volumes resultantes de composições simples e proporcionais a partir do uso de pedras, tijolos e concreto armado, apresentados em seu estado aparente. O resultado espacial e arquitetônico interage com o terreno e com o entorno imediato, aproximando os arquitetos do expressionismo alemão. As composições expressionistas também são caracterizadas pela presença de materiais rústicos sob o efeito da luz, exaltando uma certa dramaticidade. Gottfried segue a linguagem expressionista, contudo, desenvolvendo experimentações formais mais intensas – dotando sua obra com características também da corrente brutalista – visíveis na obra de Brusque e na apropriação da topografia do terreno pela arquitetura. Além do uso do efeito da luz na arquitetura, o brutalismo faz uso da topografia como um elemento que contribui na composição final, constituindo simultaneamente arquitetura e paisagem. Gottfried, através da topografia do terreno materializou a forma das escadarias e também induziu a formação do átrio de entrada com o grandíssimo pé direito.



O interior da igreja foi sobriamente decorado e sem acabamentos característicos nos tradicionais templos religiosos. São superfícies de fechamentos feitos de pedras cinzas e concreto aparente – compondo com a presença dos cobogós que lembram escamas de peixes. Além das escamas de peixes presentes nos cobogós, estão representados nos vitrais, outros símbolos do cristianismo, como: peixe, uva, cruz e o ramo de trigo. Nas paredes adjacentes ao altar, o pano de vitrais se estende até o chão, iluminando esta parte interior da igreja com maior intensidade.

A arquitetura de Gottfried Böhm, sob os enfoques expressionista e brutalista, transmite sensações visuais aliadas à surpresa do observador, criando uma arquitetura alternativa ao racionalismo, às perfeitas fachadas lisas e rebocadas a partir de um experimento de novos materiais. Espacialmente a Igreja Matriz São Luiz Gonzaga apresenta uma planta que lembra a planta da basílica romana - edifício grande, geralmente composto por uma nave central, duas colaterais e uma ou mais absides. A Igreja Matriz possui duas fileiras de pilares demarcando a nave principal, alusão a nave tripartida e as lajes levemente abobadadas, concebida originalmente em concreto aparente – influência de Dominikus que utilizava concreto aparente em projetos da década de 1920, bem antes desse material ganhar espaço na arquitetura religiosa e na arquitetura em geral, principalmente a partir dos anos de 1960.

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Uma forte característica dos projetos dos arquitetos Böhm, incomum na Arquitetura Moderna sob o aspecto espacial – foi a adoção da linguagem vernacular gótica e românica. Apesar de fazerem uso de materiais e técnicas construtivas modernistas, as igrejas de Brusque e de Blumenau, apresentam características espaciais e elementos da arquitetura gótica, como: o verticalismo, a monumentalidade, o arcobotante representado nos elementos externos que seguram as grandes e altas paredes, as abóbadas, os vitrais, a simetria, entre outros.

A Igreja Matriz São Luiz Gonzaga – permite-nos a percepção de uma dramacidade que envolve o homem dentro de um ambiente, criado para refletir o sagrado em sua forma mais simples mediante o uso de materiais retirados do entorno do terreno. A riqueza reside na disposição dos vitrais que permitem o acesso da luz que junto com as pesadas paredes de pedras, criam uma atmosfera celestial, tal como nas catedrais góticas medievais, só que, com a presença da simplicidade dos materiais apresentados na sua forma natural.






Referências Bibliográficas
ARGAN, Giulo Carlo. A arte moderna na Europa: de Hogarth a Picasso; tradução, notas e posfácio, Lorenzo Mammì. - 1. ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2010. - 739 p.: il.
CAVALCANTI, Carlos. História das Artes - Pré-História / Antiguidade / Idade Média / Renascença na Itália. 2° Edição. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira SA, 1968. 246p.: il.
RAMOS, Flávia Martini, COVATTI, Leodi Antônio, DAUFENBACH, Karine. Templos Modernos: Estudo faz Igrejas Projetadas por Dominikus e Gottfried Böhm em SC. Florianópolis: PET/ARQ/UFSC
WITTMANN, Angelina. Arquitetura - Igreja Matriz São Luiz Gonzaga - Brusque - Projeto Gottfried Böhm. Angelina Wittmann, Arte – Cultura – História – Antropologia. Blumenau. 8 de março de 2016. Disponível em: https://angelinawittmann.blogspot.com/2016/03/arquitetura-paroquia-sao-luiz-gonzaga.html . Acessado: 17 de março de 2019 – 22:0h.

Angelina Wittmann é graduada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Regional de Blumenau (1997) – Blumenau SC. Mestre em Urbanismo, História e Arquitetura da Cidade, pela Universidade Federal de Santa Catarina (2008) – Florianópolis SC. Autora dos livros: A Estrada de Ferro no Vale do Itajaí- Resgate do Trecho Blumenau a Warnow e Ferrovia no Vale do Itajaí – Estrada de Ferro Santa Catarina - Edifurb. Integra o quadro docente do Curso de Arquitetura e Urbanismo – UNIDAVI - cidade de Rio do Sul SC. Pesquisadora nas áreas de Urbanismo, História, Arquitetura da cidade de Blumenau e Santa Catarina. Alimenta o Blog Angelina Wittmann – Arte Cultura – História e Antropologia